Fim da patende do Ozempic: e agora?
A Novo Nordisk solicitou patente para medicamentos contendo semaglutida em 2006. Ela só foi aprovada pela ANVISA em 2019, quando esses medicamentos passaram a ser vendidos no país. A farmacêutica tentou adiar judicialmente a expiração da patente justificando as perdas ao longo dos 13 anos de “atraso”, mas não teve sucesso. Por isso, hoje, dia 20 de março de 2026, chega ao fim a patente do Ozempic®.
Medicamentos contendo semaglutida
Atualmente, há vários medicamentos com semaglutida no mercado brasileiro. Todos eles, contudo, são produzidos pela Novo Nordisk, que (ainda) detém o monopólio sobre a substância. O Ozempic® talvez seja o mais “famoso” por ter iniciado a era das “canetas emagrecedoras”. Inicialmente, o Ozempic® tinha aprovação exclusiva para uso no diabetes tipo 2, assim como a semaglutida em comprimidos, vendida como Rybelsus®. Em 2023, a ANVISA aprovou o uso da semaglutida no manejo da obesidade, ano em que a farmacêutica lançou o Wegovy®. Assim como o Ozempic®, o Wegovy® contém semaglutida para uso injetável, mas com uma faixa de dose ampliada, que chega a 2,4 mg.
Não é incomum que o mesmo fármaco seja comercializado como medicamentos distintos para diferentes indicações. Por exemplo, a sildenafila, componente ativo do Viagra®, indicado para disfunção erétil, também está presente no Revatio®, com uso recomendado para hipertensão pulmonar. Essa é uma forma de “compartimentalizar” a venda desses medicamentos, com maior controle da demanda em cada uma das indicações, inclusive para evitar desabastecimentos.
Voltando à semaglutida: Ozempic® passou a ser o medicamento indicado para diabetes tipo 2, enquanto o Wegovy® passou a ser a opção para obesidade. Na prática, isso importa pouco, até porque os medicamentos são intercambiáveis, desde que em doses equivalentes. Recentemente, a FDA aprovou o uso de semaglutida oral, em comprimidos, para perda de peso. Por isso, o Rybelsus®, já comercializado no Brasil, pode ganhar um novo “nome”, com indicação voltada à perda de peso. Nos EUA, os comprimidos de semaglutida para perda de peso também serão vendidos como Wegovy®, mas essa informação ainda não foi divulgada no Brasil.
Além de todas essas opções, a Novo Nordisk firmou parceria com a Eurofarma para a distribuição nacional de medicamentos injetáveis com semaglutida. Isso aconteceu às vésperas do fim da patente, com o objetivo de reduzir o preço e ampliar o alcance dos medicamentos no país. Aí surgiram o Poviztra® e o Extensior®, com indicações formais para perda de peso e para diabetes tipo 2, respectivamente.
Em outras palavras: todos os 5 medicamentos com semaglutida comercializados no Brasil são produzidos pela Novo Nordisk.
O que muda com o fim da patente?
A expiração da patente dá início a um novo ciclo para um fármaco. A partir daí, qualquer indústria farmacêutica pode registrar e produzir medicamentos contendo o princípio ativo. Portanto, espera-se que novos medicamentos com semaglutida cheguem ao mercado em breve, talvez ainda em 2026. No início do ano, a ANVISA divulgou que já havia mais de 10 pedidos de registro de novos medicamentos contendo semaglutida. Esses novos medicamentos podem ser genéricos ou similares.
Segundo a Lei 9.787, de 10 de fevereiro de 1999, um medicamento genérico é aquele com composição idêntica ao medicamento de referência (o “original”, no caso, Ozempic® e Wegovy®), com testes que comprovam a bioequivalência, garantindo que todo o processo de absorção, distribuição e eliminação do fármaco permaneça inalterado. Ou seja, o genérico é uma cópia fiel do medicamento de referência, com comprovação disso durante o registro junto à ANVISA. Por isso, medicamentos genéricos e de referência são intercambiáveis e podem ser trocados sem problemas.
Já os medicamentos similares são aqueles com o mesmo fármaco, na mesma concentração e posologia, na mesma forma farmacêutica, via de administração e indicação terapêutica que o medicamento de referência. Contudo, eles podem apresentar componentes inertes (excipientes e veículos) distintos, o que pode impactar o perfil de absorção, distribuição e eliminação do fármaco no organismo. Não há obrigação de comprovar bioequivalência. Por isso, eles não podem substituir medicamentos de referência nem genéricos, não havendo comprovação de intercambiabilidade.
E qual o impacto nos preços?
Independentemente dos novos medicamentos com semaglutida serem genéricos ou similares, o maior impacto no fim da patente é a queda de preços. Por lei, medicamentos genéricos devem ser 35% mais baratos do que os de referência, no mínimo. Os similares, por sua vez, tendem a ter preços inferiores aos de referência devido à dispensa da obrigatoriedade de testes de bioequivalência, o que reduz os custos na fase de registro junto à ANVISA. Como consequência, se uma unidade de Ozempic® custar R$ 1.000, pode-se esperar que um genérico custe, no máximo, R$ 650.
E essa redução nos preços pode ser ainda maior. É comum que a farmacêutica detentora da patente reduza os preços dos medicamentos às vésperas da expiração da patente. Essa é uma forma de “fidelizar” os consumidores, que podem optar por manter o uso do medicamento de referência caso os preços caiam. A Novo Nordisk reduziu os preços de medicamentos com semaglutida em 50% na China, por exemplo. No Brasil, a farmacêutica já anunciou uma nova política de preços e “promoções” para a compra de Rybelsus® e Wegovy®, a partir do final de março.
O paradoxo nessa redução de preços é que mesmo com a queda no valor do medicamento de referência, o genérico vai ser ainda mais barato, custando, no máximo, 65% dos novos preços aplicados. Em uma analogia, é como se a briga mudasse de foco: antes, os consumidores brigavam pelo medicamento mais barato. Agora, as farmacêuticas brigam pelos consumidores. O acesso fica facilitado, assim como o risco de uso inapropriado desses medicamentos.
Ozempic no SUS?
Um possível desdobramento da queda de preço é a disponibilização do fármaco no SUS. Em 2025, a CONITEC não recomendou a incorporação da semaglutida à rede pública devido ao alto custo. Algumas estimativas otimistas indicam que o custo de versões genéricas em licitações poderia ser significativamente reduzido, o que poderia levar à reavaliação da incorporação ao SUS. Por exemplo, o Rio de Janeiro já anunciou a incorporação do Ozempic® à rede pública, antecipando a redução de preços. Com a queda de patente em ano eleitoral, tudo é possível.
