DoxiPEP chega ao SUS

Postado por: Lucas Gazarini

O SUS ganhou uma nova arma na prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (IST): a DoxiPEP. O Ministério da Saúde publicou, no dia 10 de março de 2026, a portaria que amplia o uso da doxiciclina em protocolos de Profilaxia Pós-Exposição (PEP). Com isso, a PEP – que atualmente previne infecções por HIV e hepatites virais – passa a ter cobertura estendida para ISTs bacterianas, como a sífilis e a clamídia.

A decisão não foi “precipitada”. Em dezembro de 2025, a CONITEC publicou um relatório técnico preliminar favorável à ampliação do uso do antibiótico no SUS, após avaliar as evidências de eficácia e o impacto econômico da medida. Uma consulta pública coletou opiniões do público geral sobre essa medida até janeiro de 2026 (veja aqui). Já neste ano, começaram a surgir expectativas de inclusão da DoxiPEP no SUS.

 

Doxiciclina em destaque

Estrutura química da doxiciclina, com destaque para os 4 anéis carbônicos (tetracíclico).

A doxiciclina é um antibacteriano da classe das tetraciclinas, com amplo espectro de ação por inibir a síntese proteica bacteriana. Sua ação é bacteriostática, ou seja, impede a proliferação bacteriana, permitindo que o sistema imune elimine a infecção.

Não se trata de “um novo antibiótico”. Muito pelo contrário, esse fármaco passou a ser vendido na década de 1960. Atualmente, a doxiciclina faz parte da lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial da Saúde e da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) no Brasil.

No SUS, a doxiciclina já está disponível para o tratamento de infecções causadas por bactérias sensíveis, como infecções respiratórias (Mycoplasma pneumoniae Haemophilus influenzae), febre do carrapato (Rickettsia spp.) e outras infecções por bactérias Gram-negativas (Shigella spp., Escherichia coliKlebsiella spp., entre outras descritas na bula do antibiótico).

Entre as ISTs, a doxiciclina é especialmente eficaz no tratamento da sífilis (Treponema pallidum) e da clamídia (Chlamydia trachomatis), conforme preconiza o Protocolo Clínico e as Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com IST. Nesses casos, o tratamento é feito por 7 a 15 dias, em geral. A grande diferença da DoxiPEP é o uso pontual, em um único dia, para a prevenção dessas ISTs, ou seja, antes que a infecção se instale.

 

Entenda as evidências de eficácia da DoxiPEP

Desde o início dos testes clínicos e do uso em alguns países, a DoxiPEP foi associada à redução do risco de sífilis e de infecções por clamídia. Esses resultados levaram ao início do trâmite para inclusão do protocolo de DoxiPEP no SUS, em 2024.

Na última década, a eficácia da DoxiPEP foi estabelecida com alguns estudos:

  • 2015. Um estudo-piloto norte-americano (NCT02257658) avaliou homens que fazem sexo com homens (n=30) em uso de doxiciclina diária por 48 semanas. Os resultados indicaram uma chance 73% menor de contrair sífilis, clamídia e gonorreia entre os participantes que usaram o antibiótico, reforçando seu potencial profilático. É importante destacar que esse estudo não usou o protocolo de DoxiPEP, mas um tratamento diário, de forma continuada;
  • 2018. O estudo aberto ANRS IPERGAY (NCT01473472), na França, foi o primeiro a avaliar a DoxiPEP de forma sistemática. Os participantes (n=232) usavam ou não a DoxiPEP, ao longo de até 10 meses. Entre os que usaram o antibiótico, a incidência de IST foi quase metade em comparação com os que não usaram. A prevenção foi eficaz contra novos casos de clamídia e sífilis, reduzindo o risco de infecção em 70% e 73%, respectivamente. A DoxiPEP não foi eficaz na prevenção de casos de gonorreia (Neisseria gonorrhoeae);
  • 2023. Um estudo aberto norte-americano (NCT03980223) indicou que a DoxiPEP reduziu a incidência de ISTs bacterianas em mais de 60% entre homens que fazem sexo com homens, mulheres transgênero e pessoas que vivem com HIV (n=501), acompanhados por mais de um ano. O tratamento reduziu o risco de clamídia (74 a 88%), sífilis (77 a 87%) e gonorreia (55 a 57%);
  • 2024. O estudo ANRS 174 DOXYVAC (NCT04597424), também francês, incluiu homens que fazem sexo com homens (n=545) avaliados por até 2 anos. O uso da DoxiPEP associou-se a uma redução de 83% na incidência de clamídia ou de sífilis;
  • 2025. Uma continuação do estudo americano de 2023, que confirmou a redução da incidência de qualquer IST bacteriana de 61% entre os participantes que usaram DoxiPEP (n=592) ao longo de um ano, com risco reduzido de até 80% de infecções por clamídia e sífilis.

Em conjunto, os resultados foram uniformes quanto à associação do protocolo DoxiPEP à prevenção de casos de ISTs bacterianas, especialmente clamídia e sífilis.

 

Como a DoxiPEP funciona?

Os EUA foram o primeiro país a recomendar formalmente o uso da DoxiPEP, em 2024. Os Centers for Disease Control (CDC) publicaram diretrizes clínicas que orientam a prescrição e o uso. Como a aprovação no Brasil é recente, ainda não houve a publicação do relatório final da CONITEC nem de protocolos específicos para o DoxiPEP no país. Mesmo assim, o uso é simples e deve ser o mesmo adotado nos estudos clínicos e preconizado pelo protocolo do CDC.

O público-alvo para uso da DoxiPEP inclui homens que fazem sexo com homens, mulheres trans e travestis que fazem sexo com homens, com base nas populações avaliadas nos estudos clínicos. Em todos os casos, a DoxiPEP é recomendada quando há pelo menos um episódio de IST bacteriana no último ano. Quando houver sexo sem proteção com preservativos, o usuário deve tomar 200 mg de doxiciclina (2 comprimidos de 100 mg) até 72 h após a exposição, conforme ilustrado no esquema abaixo. Preferencialmente, o uso deve ser realizado nas primeiras 24 h para otimizar a eficácia.

O esquema ilustra o protocolo de uso da DoxiPEP, mostrando a representação de 2 comprimidos de doxiciclina (200 mg) que devem ser usados em até 72 h após a relação sexual desprotegida.

Protocolo de uso da DoxiPEP, com dose de 200 mg de doxiciclina, administrada até 72 h após a relação sexual desprotegida.

 

Alguns efeitos colaterais são esperados com o uso da doxiciclina e podem ser reduzidos com alguns cuidados. Os principais efeitos indesejados são gastrointestinais, incluindo diarreia, náusea, vômito e dor abdominal. Esses efeitos podem ser reduzidos com a ingestão dos comprimidos com grande quantidade de água ou junto às refeições. Deve-se evitar o uso de comprimidos por até 2 h antes de deitar ou de dormir, para reduzir o risco de esofagite. Um intervalo de 2 h também deve ser adotado entre o uso dos comprimidos e a ingestão de laticínios, antiácidos e suplementos de ferro, magnésio e cálcio, pois pode haver redução na absorção do antibiótico. O medicamento também causa fotossensibilidade; por isso, recomenda-se o uso de protetor solar durante o tratamento.

Os CDC recomendam o monitoramento trimestral dos usuários, com exames de rotina para ISTs, incluindo sífilis, clamídia, gonorreia e HIV. O uso da DoxiPEP deve ser reavaliado semestralmente, com base nos comportamentos do usuário e na adesão a outras formas de prevenção.

 

Impactos e limitações

Na cidade do Rio de Janeiro, a DoxiPEP já é disponibilizada na rede pública desde 2024. No Brasil, muitos prescritores já indicavam o uso da DoxiPEP, mesmo sem acesso gratuito pelo SUS. Agora, a notícia da inclusão da DoxiPEP na rede pública nacional foi divulgada na mídia e comemorada por agências voltadas à prevenção de HIV e de outras ISTs. Um protocolo clínico detalhado para o uso da DoxiPEP deve ser publicado nos próximos meses, ampliando as medidas de prevenção combinada já disponíveis, como a PrEP.

Embora a notícia seja boa, é importante destacar o risco de aumento da resistência bacteriana decorrente do uso indiscriminado de antibióticos. Por exemplo, alguns estudos indicam que o uso de tetraciclinas, incluindo a doxiciclina, tem selecionado cepas resistentes de bactérias do gênero Neisseria, incluindo a causadora da gonorreia. Esses achados se replicam em outros lugares do mundo, aumentando o alerta sobre a exposição a antibióticos e a seleção de cepas altamente resistentes a outros antimicrobianos usados nesses casos, como a ceftriaxona.

Justamente por essa maior resistência, a DoxiPEP parece não ser eficaz na prevenção da gonorreia. Algumas cepas de Neisseria são sensíveis à doxiciclina, o que justifica alguns resultados positivos da DoxiPEP na prevenção da gonorreia (como no estudo de 2023) e até a menção à possibilidade de uso da doxiciclina no tratamento dessa IST, em cepas sensíveis (conforme a bula). Contudo, é possível que a resistência crescente torne inviável, a longo prazo, o uso da doxiciclina no manejo da gonorreia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Veja também